Pegamos a estrada no carnaval com o SUV “ultra-híbrido” da Leapmotor; C10 REEV tem bons argumentos para incomodar o segmento dos médios

Embora modelos elétricos estejam ganhando espaço nas casas dos brasileiros, a infraestrutura de carregamento ainda preocupa e afasta possíveis compradores. A intenção da Leapmotor com o SUV C10 REEV é oferecer uma solução para o problema, por meio de um extensor de autonomia para o conjunto elétrico. A melhor maneira de testar isso seria numa viagem de quase 700 km durante o carnaval, entre as cidades de Rio de Janeiro e Macaé (RJ), no interior do estado.

Antes de mais nada, vamos às apresentações e explicações. O Leapmotor C10 desembarcou no Brasil ainda no ano passado, vindo de Hangzhou, na China. Agora sob o guarda-chuva da Stellantis, chega ao país em duas versões, uma elétrica (BEV), por R$ 204.990, e a REEV, com extensor de autonomia, por R$ 219.000. Assim, a unidade avaliada foi a REEV, na cor Verde Boreal, uma das cinco disponíveis, sem custo adicional.

O que significa REEV?

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

“Mas o que é REEV?” Você deve estar se perguntando. Essa é mais uma sigla da vasta sopa de letrinhas que define um veículo e sua propulsão hoje em dia. Na prática, trata-se de um SUV elétrico que tem um motor a combustão, que não traciona as rodas, e que dá mais alcance ao conjunto todo. Quem faz o C10 andar é um motor elétrico, no eixo traseiro (bem como sua tração), que entrega 215 cv (3 cv a menos que a versão BEV) e 32,6 kgfm, ligado a uma bateria de 28,4 kWh. O motor gerador, por sua vez, tem 1,5 litros e 88 cv de força, movido à gasolina.

O resultado é uma autonomia no entorno dos 1000 km, sendo 111 km entregues somente pela bateria. Ainda que o alcance elétrico seja inferior à versão BEV, a grande virada é a possibilidade de usar o motor a gasolina para ir mais longe. O sistema funciona nos seguintes modos:

EV+: dá preferência máxima à propulsão elétrica, recorrendo ao motor a combustão somente quando o nível de carga da bateria atinge patamar reduzido.

EV: alterna de forma inteligente entre eletricidade e combustão, sendo indicado para percursos que combinam trânsito urbano e trechos de estrada.

Combustível: coloca o motor a gasolina como fonte principal de energia, opção mais adequada para deslocamentos extensos.

Power+: mantém o propulsor a combustão ligado desde o momento da partida, operando de maneira contínua.

Bom espaço interno e porte de Jeep Commander deixam clara a briga pelo segmento dos SUVs médios

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Durante nossa semana de teste, o que mais chamou a atenção internamente foi o conforto do C10. Apesar de calçado em grandes rodas aro 20, pouco das imperfeições do piso foram passadas para dentro. Além disso, os bancos, macios na medida certa, não cansaram mesmo em trajetos longos, além de contarem com função de resfriamento, útil em dias quentes. Contudo, vale destacar o acerto da suspensão, mais firme que o comum para carros chineses, bem calibrado para o castigado piso brasileiro.

Outros destaques do C10 ficam por conta da tecnologia embarcada. O modelo oferece câmeras com visão 360º e 540º, incluindo recurso de transparência do solo, além de permitir a gravação do trajeto no estilo dashcam. No pacote de segurança, o Leapmotor traz conjunto completo de assistências à condução (ADAS) de nível 2, com piloto automático adaptativo, assistente de permanência em faixa e sistema de frenagem automática de emergência, por exemplo.

Dirigibilidade: conforto e acerto de suspensão do C10 impressionam

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

No visual, o Leapmotor C10 mescla linhas futuristas com discrição. O modelo mede 4,73 metros de comprimento e 1,90 metro de largura, o que o coloca no porte de rivais como o Jeep Commander, por exemplo. O entre-eixos é de 2,82 metros, o que favorece o espaço para os passageiros, que viajam sem aperto. A cabine impressiona pela qualidade dos materiais. Superfícies acolchoadas e emborrachadas estão por toda parte, e os revestimentos, discretos, agradam tanto ao olhar quanto ao toque. O porta-malas, de 435 litros, acomoda bem as bagagens, apesar de ser menor que o da versão elétrica, com 465 litros.

Mesmo em uma condução mais espirituosa, o SUV permaneceu plantado ao asfalto, sem transmitir insegurança. A frenagem, apoiada por discos nas quatro rodas, também é boa. Assim, os 215 cv de potência e 32,6 kgfm de torque sempre pareceram suficientes mesmo carregado e com bagagem, e ficam mais perceptíveis no modo Esportivo, onde aceleração e resposta da direção ficam mais espertos. Além disso, há o modo Conforto, onde o SUV adota um tom mais suave na condução. No Personalizado, é possível regular conforme o gosto de quem dirige.

Extensor de autonomia “tira o medo” de viagens longas e carregadores ocupados

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Em matéria de consumo, recebemos o modelo com pouca bateria, mas de tanque cheio, uma boa oportunidade para testar como o extensor de autonomia funciona. Por instrução da loja da Leapmotor, usei de cara o modo Power+, que mantém o motor a gasolina ligado o tempo todo e carrega a bateria mais efetivamente. Durante a viagem, o modo EV foi companheiro dos longos engarrafamentos, mas o motor a combustão praticamente não foi acionado.

Já na cidade de Macaé (RJ), onde são poucos (e disputados) os postos de carregamento, pude usar o modo EV+, bem como testar seu carregamento. Quando a ansiedade pelo pouco alcance elétrico bater, a mudança para o modo Combustível ou Power+ pode ser feita pelo painel, e o carro faz uso dos 50 litros de gasolina que consegue carregar. Com o extensor desligado, o carro roda silenciosamente; já ligado, o ruído é ínfimo e não incomoda, por exemplo.

Ao sinal de pouca bateria, um aviso no painel aparece: hora de carregar, seja via tomada ou pelo motor a gasolina / Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Na viagem de volta, resolvo utilizar todo o alcance elétrico (EV+) na estrada. Na casa dos 20 km restantes, o carro pede para que se ligue o motor novamente, antes que o faça sozinho. Seja como for, em matéria de autonomia, o extensor está ali para ajudar o condutor a não ficar “na pista”, procurando um carregador.

SUV também tem seus pecados: cartão NFC é bossa dispensável, botões físicos fazem falta

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Contudo, se em dirigibilidade e autonomia o Leapmotor C10 REEV agrada, seus pecados também são aparentes. O primeiro deles é a chave que destranca e dá partida, um cartão NFC. Pouco prático, pode ser chato de sacar em dias de chuva, e nem sempre o leitor reconhece rapidamente o cartão na hora da partida, o que é incômodo. Além disso, em algumas vezes, o SUV trancou com o cartão no console. Entretanto, sempre de celular em mãos (com o app que permite, entre muitas coisas, abrir o carro), pude destrancá-lo e recuperar o cartão. Me pergunto como seria a manobra no caso de um celular descarregado, por exemplo.

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Outro pênalti está na central multimídia LeapOne, de 14,6 polegadas. Responsável por praticamente tudo internamente, peca por não oferecer conectividade com os sistemas Android Auto e Apple CarPlay, algo que a marca deve resolver em uma atualização OTA (over the air) em algum momento. Outra questão são os comandos do ar-condicionado (cujas saídas são embutidas no painel), que, embora de acesso descomplicado, poderiam ganhar botões físicos, evitando distrações ao volante. Botões de acionamento dos vidros de ação invertida e o botão do pisca no teto fogem ao ergonômico.

Conclusão: C10 REEV tenta redefinir conceito de SUV híbrido, e tem boas armas para isso

Rodrigo Tavares/Autos Segredos

Por fim, depois de 670 km percorridos, o Leapmotor C10 REEV deixa muitas impressões. A primeira delas é que o foco do modelo, que custa R$ 219.990, é claramente o conforto. Com bancos que recebem bem os ocupantes, bons materiais na interna e pouco plástico aparente, trazem um ar de carro bem mais caro do que custa, por exemplo. O visual, ainda que novo, chama a atenção e se distancia dos demais concorrentes de maneira chamativa, e ao mesmo tempo discreta.

Pode parecer contraditório, mas é essa a impressão que o SUV deixa em quem o maneja: um elétrico que usa gasolina para se “alimentar” mas não exatamente para se mover, e mais do que isso: um híbrido que não dá medo de pegar a estrada. Claro, tem tantas inovações que algumas até são incômodas, mas há espaço para melhorias. Concorrentes de marcas como BYD e GAC têm com o que se preocupar, de fato.

Ficha técnica Leapmotor C10 REEV 2026

  • Motor
    Elétrico traseiro síncrono de ímã permanente, com 158 kW (215 cv) de potência e torque imediato. Conta com motor 1.5 a gasolina, quatro cilindros em linha, que atua exclusivamente como gerador para recarregar a bateria no sistema de autonomia estendida (REEV)
  • Transmissão
    Tração traseira e transmissão automática de relação fixa (redutor de uma velocidade)
  • Direção
    Tipo pinhão e cremalheira com assistência elétrica; diâmetro de giro aproximado de 11,3 metros
  • Freios
    Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS, EBD, controle eletrônico de estabilidade e assistente de partida em rampa
  • Suspensão
    Dianteira independente tipo McPherson; traseira independente multilink; altura livre do solo aproximada de 18 centímetros
  • Rodas/pneus
    Aro 20 de liga leve, 245/45 R20
  • Peso
    Cerca de 1.980 kg
  • Carga útil (passageiros + bagagem)
    Aproximadamente 450 kg
  • Dimensões (metro)
    Comprimento, 4,739; largura, 1,900; altura, 1,680; distância entre-eixos, 2,825
  • Capacidades (litro)
    Porta-malas, 435; tanque de combustível, 50; bateria com capacidade de 28,4 kWh
  • Recarga
    Em corrente alternada (AC) a 6,6 kW, o tempo estimado é de 3 horas para recarga de 30% a 80% e 6 horas de 5% a 100%
    Em corrente contínua (DC) com potência de até 65 kW, a recarga de 30% a 80% pode ser realizada em cerca de 18 minutos
  • Desempenho
    Velocidade máxima de 170 km/h limitada eletronicamente; aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 7,5 segundos
  • Autonomia
    Alcance no modo 100% elétrico em torno de 111 km (Inmetro)/ Autonomia combinada superior a 950 km no mesmo padrão, considerando bateria e gerador a combustão