Estratégia mira reduzir peso, custo e complexidade para enfrentar ansiedade de autonomia e bater de frente até com modelos a combustão

A Ford está apostando em uma mudança estrutural na engenharia de veículos elétricos para torná-los realmente acessíveis. Em vez de seguir a lógica dominante de aumentar o tamanho das baterias para ampliar a autonomia, a marca quer fazer exatamente o oposto: extrair mais quilômetros de um pacote menor, mais leve e mais barato.

A estratégia lembra um momento decisivo da indústria. Nos anos 1970, a crise do petróleo obrigou as montadoras a repensarem motores grandes e pouco eficientes. A solução veio com o turbocompressor, tecnologia que ganhou força décadas depois. Em 2011, a Ford enfrentou ceticismo ao lançar o EcoBoost na Ford F-150 nos Estados Unidos. Hoje, quase 75% das F-150 vendidas utilizam motores turbo, e a solução virou padrão na indústria.

Agora, o desafio é outro: a eletrificação.

O problema da bateria gigante

Segundo Alan Clarke, diretor executivo de Desenvolvimento Avançado de Veículos Elétricos da Ford, a bateria representa cerca de 40% do custo de um elétrico e mais de 25% do peso total do veículo.

“Hoje, a indústria enfrenta um desafio semelhante com os veículos elétricos. E a solução de engenharia para a ‘ansiedade de autonomia’ tem sido, geralmente, aumentar o tamanho da bateria. No entanto, a bateria é o componente mais crucial para a viabilidade financeira, pois representa cerca de 40% do custo do veículo e mais de 25% do seu peso total”, diz Alan Clarke.

A matemática é simples: mais bateria significa mais peso, mais custo e maior complexidade estrutural. É um ciclo que encarece o produto final e dificulta a popularização.

“A nossa grande aposta é a obsessão por extrair mais quilômetros de uma bateria menor e simplificar radicalmente o sistema para reduzir o número de peças, permitindo entregar uma nova família de veículos elétricos acessíveis para clientes de todo o mundo”, continua o executivo.

A primeira aplicação prática dessa nova plataforma será uma picape elétrica de médio porte.

A caça às “recompensas”

Foto | Ford/Divulgação – A Plataforma Universal de Veículos Elétricos da Ford usa conceitos inovadores para reduzir o custo de aquisição e posse para o cliente

Para atingir essa meta, a Ford criou uma equipe dedicada exclusivamente a métricas de autonomia, eficiência e desempenho. O foco passou a ser peso, arrasto aerodinâmico, resistência ao rolamento e, principalmente, tamanho da bateria.

O diferencial está no sistema chamado de “recompensas”, que atribui impacto financeiro e de autonomia a cada decisão técnica.

Um exemplo: aumentar apenas 1 mm na altura do teto pode representar US$ 1,30 adicionais em custo de bateria ou a perda de 0,088 km de autonomia. Isso muda completamente a dinâmica interna entre as equipes.

“Este é apenas um exemplo das inúmeras recompensas em que nossa equipe se concentrou. Quando atingíamos as metas, estabelecíamos outras mais difíceis”, afirma Alan Clarke.

Outro caso foi o redesenho do espelho retrovisor externo, que ficou mais de 20% menor. O resultado: menos massa, menor arrasto aerodinâmico e 2,4 km extras de autonomia.

Arquitetura elétrica simplificada

Outro pilar da estratégia é a simplificação radical da arquitetura elétrica.

Em 2023, a Ford internalizou o desenvolvimento da eletrônica de potência de alta tensão ao adquirir a Auto Motive Power. A meta foi reduzir perdas energéticas e integrar sistemas que antes eram fragmentados entre diferentes fornecedores.

A nova plataforma contará com:

  • Sistema de baixa tensão de 48V inédito na marca
  • Carregamento bidirecional
  • Software próprio
  • Ecossistema completo de recarga desenvolvido internamente

Além disso, o chicote elétrico da nova picape será 1,2 km mais curto e 10 kg mais leve em comparação aos elétricos de primeira geração da marca.

Enquanto veículos convencionais utilizam mais de 30 módulos eletrônicos (ECUs), a nova arquitetura terá apenas cinco módulos principais, reduzindo peso, custo e complexidade.

A nova aposta da Ford

“Sabemos que haverá céticos, assim como houve quando a Ford introduziu o turbo na F-150”, completa Alan Clarke. “Outras empresas dirão que já tentaram isso antes. Mas a física não é proprietária. Estamos criando uma plataforma de veículo elétrico verdadeiramente integrada, não uma única peça que possa ser facilmente copiada. Se tudo der certo, teremos uma família de veículos que vai competir em preço com os melhores do mundo, incluindo veículos a gasolina. Ainda há muito a fazer, mas estamos progredindo e esperamos compartilhar mais novidades em breve.”

Se a estratégia funcionar, a Ford pode inaugurar uma nova fase da eletrificação: menos obsessão por baterias gigantes e mais foco em eficiência sistêmica. Em um mercado pressionado por preços altos e margens apertadas, a marca aposta que inteligência de engenharia pode valer mais do que simplesmente adicionar mais kWh.

Foto principal | Ford/Divulgação

Se inscreva no canal do Autos Segredos no YouTube!

Confira nosso primeiro contato com a Ford Maverick Hybrid 2025: