Proposta aventureira fica só no visual, pois não há alterações mecânicas. Modelo é bom de dirigir e traz soluções internas interessantes, mas atual geração está à beira da aposentadoria
Os chamados aventureiros urbanos têm pouco mais de 10 anos: surgiram em 1999, com o lançamento da Palio Weekend Adventure. Durante a curta trajetória, os modelos com roupagem off-road caíram no gosto do consumidor brasileiro e passaram a fazer parte dos portfólios de quase todos os fabricantes de automóveis do país. A Honda foi uma das últimas a aderir à moda, com o Fit, talvez porque as marcas japonesas tenham tradição em oferecer produtos racionais, enquanto os veículos em questão têm apelo mais emocional. A configuração Twist é intermediária dentro da gama, com preço sugerido de R$ 60.990. Será que o monovolume vale a quantia cobrada por ele?
Apesar do estilo, o Twist não dispõe de quaisquer alterações mecânicas. Até a altura em relação ao solo foi mantida, algo indesejável em um veículo que deveria, ao menos, encarar estradas de terra com um pouco mais de desenvoltura que as demais versões. O comportamento é de um típico carro urbano, feito para o asfalto, de preferência em boas condições: as suspensões, do tipo MC Pherson na frente e eixo de torção atrás, têm calibragem rígida. Durante breves incursões por vias sem pavimentação, em boas condições, o Fit não se sentiu à vontade, com batidas secas dos amortecedores e muita transferência das imperfeições do piso ao habitáculo. O outro lado da moeda é visto na hora de fazer curvas, contornadas com muita propriedade pelo monovolume da Honda. O motorista nem tem a impressão de estar guiando um modelo com centro de gravidade mais elevado, pois a carroceria inclina pouco e a trajetória é mantida mesmo quando se abusa um pouco da velocidade. Também colabora para o comportamento a direção com assistência elétrica, bastante direta e com ótima progressividade, deixando o volante leve em manobras e suficientemente firme em alta velocidade.
SOB O CAPÔ O motor da versão Twist é o conhecido 1.5 16V de 115/116 cv de potência a 6.000 rpm e 14,8 kgfm de torque a 4.800 rpm. O propulsor é atual e dispõe do comando de válvulas variável que a Honda chama de i-VTEC, acionado por corrente. Bloco e cabeçote são confeccionados em alumínio. Na prática, o Fit é um carro bem disposto. As respostas em baixa rotação são satisfatórias e não há falta de fôlego, mas é nítido o ganho de rendimento quando o ponteiro do conta-giros supera as 4.000 rpm. Como o funcionamento é suave, explorar os giros mais altos não é problema. A unidade avaliada era equipada com câmbio automático, de cinco velocidades. O componente, que não tem opção de trocas sequenciais ou função sport, representa um retrocesso em relação ao ótimo sistema CVT que equipou a primeira geração do monovolume. A transmissão é suave e opera sem trancos ou desconfortos, mas nem sempre as trocas ocorrem nos momentos mais apropriados. As relações são curtas, para privilegiar as retomadas.
Além de proporcionar bom desempenho ao Fit, o conjunto mecânico também alcançou marcas de consumo satisfatórias. Porém, verdade seja dita, esperávamos resultados até um pouco melhores, devido à fama de economia de combustível que o modelo japonês construiu no mercado. Em ciclo urbano, a média foi de 8,8 km/l. Nos percursos rodoviários, os números ficaram na casa dos 12,6 km/l. Como é de costume, as aferições foram realizadas com gasolina no tanque e ar-condicionado ligado durante a maior parte do tempo. Apenas para efeito de comparação, pois a nota no quesito foi dada de acordo com nossas aferições, lembramos que, na medição do Inmetro, o monovolume cravou 10,5 km/l na cidade e 12,2 km/ na estrada, com o mesmo combustível. Não custa lembrar que o consumo é influenciado por uma série de variáveis, como as condições do trânsito, as características das vias e o estilo de condução do motorista, entre outros fatores.
É fácil se sentir à vontade no arejado interior do modelo da Honda. O motorista senta-se em posição mais elevada, coisa típica de monovolume. A posição de dirigir é agradável, com fácil acesso aos comandos. A visibilidade é boa para todos os lados e os retrovisores são bem dimensionados. Os instrumentos proporcionam leitura fácil, mas não há marcador de temperatura do fluido de arrefecimento do motor. O volante de diâmetro pequeno proporciona ótima pega e está perfeitamente alinhado com o banco e os pedais, além de dispor de regulagens de altura e profundidade. Os faróis são simples, com apenas uma parábola, mas iluminam corretamente. A versão conta ainda com luzes de neblina e repetidores de seta nos retrovisores. Não pudemos avaliar os limpadores sob chuva, devido à temporada de seca em Minas Gerais, mas a área de varredura é ampla.
COMPACTO ESPAÇOSO O aproveitamento de espaço é uma das maiores qualidades do Fit. Apesar das dimensões externas compactas (são 3,93 metros de comprimento, 1,715 de largura, 1,570 de altura e 2,500 de distância entre-eixos), o habitáculo comporta quatro passageiros adultos com folga. Com lotação máxima, a situação piora, pois o habitáculo não é lá muito largo. Ainda assim, não chega a ser um suplício transportar três pessoas no banco traseiro. Além do mais, há muitos nichos para acomodar objetos. O porta-malas também é bastante amplo para o tamanho do carro, com capacidade para 384 litros de bagagem. Generoso, o vão de entrada permite a colocação de objetos grandes sem problema algum. Se a ideia é ampliar ainda mais a área para carga, não há problema: o banco traseiro é bipartido e a operação de rebatimento é fácil, bastando puxar uma alça para que assento e encosto se movimentem de uma só vez. Quando dobrado, o banco fica perfeitamente alinhado com o piso do bagageiro, formando uma superfície plana, sem degraus ou desníveis.
O acabamento segue à risca a escola japonesa: bem cuidado, mas longe de ser luxuoso. Os plásticos do painel e dos forros das portas são montados com precisão, sem vãos irregulares, encaixes desnivelados ou rebarbas. Os materiais têm texturas e cores diferentes, mas as superfícies são rígidas. A tampa do porta-luvas da unidade testada, inclusive, já estava riscada… Também são criticáveis os parafusos à mostra nas maçanetas internas. Os bancos, por outro lado, merecem elogios tanto pelo revestimento, em tecido sintético de tato macio e agradável, quanto pelo formato ergonômico, que proporciona apoio adequado para as pernas e a coluna, além das laterais do tronco em curvas. O do motorista é ajustável em altura.
PACOTE FECHADO O Fit Twist não tem opcionais, seguindo a tradição da Honda de oferecer pacotes fechados para as diferentes versões. O consumidor não precisa ficar pagando à parte por equipamentos, mas leva apenas o essencial. Há rodas de liga leve aro 16”, ar-condicionado com regulagem manual, computador de bordo, alarme, travas e retrovisores elétricos, chave com telecomando e CD player com leitor MP3 e entrada USB. Os vidros das quatro portas têm comandos elétricos, mas só o do motorista dispõe de função um-toque e dispositivo anti-esmagamento. Pelo preço, bem que a Honda poderia oferecer mais conteúdo, como acionamento automático de faróis e limpadores, sensores de estacionamento e volante multifuncional.
O modelo se sai melhor em relação aos equipamentos de segurança. Embora sejam disponibilizados apenas dois airbags frontais e o único auxílio eletrônico à condução seja o sistema ABS, é ótimo ver um banco traseiro com cintos de três pontos e encostos de cabeça para todos os ocupantes. Vale lembrar que, lamentavelmente, o passageiro central-traseiro viaja desprotegido na maioria dos carros nacionais. Outra surpresa positiva é a presença dos eficientes ganchos padrão Isofix para fixação de cadeirinhas, também raros no Brasil. É ainda digna de destaque a adoção de discos de freios nas quatro rodas. Como o Fit é leve, com apenas 1.147 kg de massa, as frenagens são extremamente eficientes. Normalmente, os fabricantes costumam adotar discos traseiros apenas em veículos mais pesados, como sedãs e SUVs de médio e grande porte, que são mais pesados e exigem melhores sistemas de imobilização.
SUBSTITUIÇÃO EM CURSO O Fit Twist é um daqueles carros que não impressionam à primeira vista, mas convencem no dia-a-dia das grandes cidades. Pequeno por fora, mas grande por dentro, encaixa-se com facilidade em vagas apertadas e em brechas em meio ao trânsito, sem deixar de lado o espaço para ocupantes e até mesmo para a bagagem. O conjunto formado por motor, transmissão e direção esbanja sintonia e, se não chega a empolgar, agrada em cheio pela dirigibilidade agradável e segura. O problema é essas qualidades não parecem ser suficientes para justificar o preço cobrado pela Honda. Uma unidade com câmbio automático, como a avaliada pelo Autos Segredos, tem valor sugerido de R$ 60.990 (o custo cai para R$ 57.990 se o câmbio for manual). É muito dinheiro, que não tem retorno na lista de equipamentos de série ou no desempenho. A conta fica ainda mais salgada quando se considera que, em 2014, estreará no Brasil a nova geração do modelo, que já teve algumas fotos reveladas pelo fabricante (veja aqui). Em fim de carreira, o aventureiro carece de um bom desconto para se tornar mais vantajoso aos potenciais compradores.
AVALIAÇÃO
Alexandre
Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas)
7
6
Consumo (cidade e estrada)
8
7
Estabilidade
8
9
Freios
9
8
Posição de dirigir/ergonomia
9
8
Espaço interno
9
9
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade)
8
8
Acabamento
7
8
Itens de segurança (de série e opcionais)
7
6
Itens de conveniência (de série e opcionais)
6
5
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)
8
7
Relação custo/benefício
6
7
FICHA TÉCNICA
MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.496 cm³ de cilindrada, 115 (g)/116 (e) cv de potência máxima a 6.000 rpm e 14,8 kgfm de torque máximo (com ambos os combustíveis) a 4.800 rpm.
TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático de cinco marchas
ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h
Dado não informado pelo fabricante
VELOCIDADE MÁXIMA
Dado não informado pelo fabricante
DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica
FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS e EBD
SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção
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